Como Jesus mudou a personalidade de seus discípulos à luz da psicologia

domingo, 19 de fevereiro de 2017


O Mestre dos Mestres tinha de revolucionar a personalidade do seu pequeno grupo para que os discípulos revolucionassem o mundo. Seria a maior revolução de todos os tempos. Mas essa revolução não poderia ser feita com o uso de armas, força, chantagem, pressões, pois estas ferramentas, sempre usadas na história, não conquistam o inconsciente. Elas geram servos, e não pessoas livres. Parecia loucura o projeto de Jesus. Era quase impossível atuar nos bastidores da mente dos discípulos e transformar as matrizes conscientes e inconscientes da memória para tecer novas características de personalidade neles. Não sabemos onde estão as janelas doentias da nossa personalidade.

Para termos uma ideia, a área equivalente à cabeça de um alfinete contém milhares de janelas com milhões de informações no córtex cerebral. Como encontrá-las? Como transformá-las? O processo é tão complicado que um tratamento psíquico demora semanas, meses, e em alguns casos anos, para ser bem-sucedido. Deletar a memória é uma tarefa fácil nos computadores. No homem ela é impossível. Todas as misérias, conflitos e traumas emocionais que estão arquivados não podem ser destruídos, a não ser que haja um trauma cerebral. A única possibilidade, como vimos, é sobrepor novas experiências no lócus das antigas – o que chamamos de reedição – ou então construir janelas paralelas que se abrem simultaneamente às doentias.

Se você tiver uma janela paralela que contém segurança, ousadia, determinação e que se abre simultaneamente às janelas do medo, do pânico, da ansiedade, você terá subsídios para superar sua crise. Se não possui essa janela, terá grande chance de se tornar uma vítima. Mas como reeditar a memória dos discípulos ou construir janelas paralelas em tão pouco tempo? Sinceramente, era uma tarefa quase impossível. Se fosse viável transportar os mais ilustres psiquiatras e psicólogos clínicos através de uma máquina do tempo para tratar dos discípulos de Jesus com sete sessões por semana, mesmo assim os resultados seriam pobres. Por quê? Por que eles não tinham consciência dos seus problemas.
 O grande desafio para o sucesso do tratamento psicológico não é a dimensão de uma doença, mas a consciência que o paciente tem da doença e a capacidade de intervenção na sua dinâmica.

Há poucos dias atendi um paciente que sofre de síndrome do pânico há dez anos. Tomou muitos tipos de antidepressivos e tranquilizantes, mas os ataques permaneceram. Depois de conhecer a sua história, expliquei-lhe o mecanismo dos ataques de pânico. Comentei sobre a abertura das janelas da memória em frações de segundos, o volume de tensão decorrente dessa abertura e o encarceramento do “eu”. Disse-lhe que o “eu” deveria sair da plateia, entrar no palco da mente no momento do ataque de pânico (foco de tensão), desafiar sua crise, gerenciar os pensamentos, criticar a postura submissa da emoção e se tornar o diretor do roteiro da sua vida. Esse processo é um treinamento. Quem o realiza reedita seu inconsciente e constrói janelas paralelas. Tem grande possibilidade de ficar livre dos medicamentos e do seu psiquiatra ou psicólogo. Sempre que treino psicólogos, enfatizo que eles devem nutrir o “eu” dos pacientes para que eles deixem de ser espectadores passivos das próprias misérias.

Os pacientes têm o direi to de conhecer o funcionamento básico da mente, os papéis da memória, a construção das cadeias de pensamentos, para serem líderes de si mesmos. Por que é tão difícil mudar a personalidade? Porque ela é tecida por milhares de arquivos complexos e contém bilhões de informações e experiências. Não possuímos ferramentas para mudar magicamente esses arquivos que se inter-relacionam multifocalmente. Quem muda as janelas do medo, da impulsividade, da timidez, do humor triste, rapidamente? Na medicina biológica alguns tratamentos são rápidos; na medicina psicológica é necessário reescrever os capítulos da história arquivados na memória. Os discípulos tinham milhares ou talvez milhões de janelas doentias. Eles frustraram seu Mestre continuamente durante mais de três anos. Jesus pacientemente os treinava.

O Mestre dos Mestres demonstrava que detinha o mais elevado conhecimento de psicologia. Conhecia o processo de transformação da personalidade. Nunca fez um milagre na personalidade humana, pois sabia que ela é um campo de reedição difícil de ser operacionalizado. Ele criou conscientemente ambientes pedagógicos nas praias, nos montes, nas sinagogas para produzir ricas experiências que pudessem se sobrepor às zonas doentias do inconsciente dos discípulos. Creio que ele realizou o maior treinamento para transformação da personalidade de todos os tempos. Ao analisar a personalidade de Jesus Cristo sob o olhar da ciência, fiquei assombrado. Tive a convicção de que a ciência foi tímida e omissa por nunca ter investigado a sua inteligência. Por isso ele foi banido das universidades, excluído da formação dos psicólogos, educadores, sociólogos, psiquiatras. Foi um prejuízo enorme.

As sociedades ocidentais tornaram-se cristãs somente no nome. Jesus Cristo programou, como um microcirurgião que disseca pequenos vasos e nervos, situações e ambientes para treinar e transformar os discípulos. Cada parábola, cada gesto diante dos marginalizados que o procuravam e cada atitude perante uma situação de perseguição eram laboratórios onde se realizava esse treinamento.

 Ele provou que em qualquer época da vida podemos mudar os pilares centrais que estruturam a nossa personalidade. Seus laboratórios eram uma universidade viva. Seu objetivo era expor espontaneamente as mazelas do inconsciente. As fragilidades apareciam, as ambições afloravam, a arrogância vinha à tona, a insensatez surgia. Seus laboratórios aceleravam o processo de tratamento psiquiátrico e psicoterapêutico.

Depois de anos de análise detalhada é que fui entender o processo usado pelo Mestre dos Mestres. Todos os seus comportamentos tinham um alvo imperceptível aos olhos. Quando era gentil com uma prostituta, ele tratava o preconceito dos discípulos. Quando era ousado em situações de risco, ele tratava a insegurança deles.

 Texto do livro: Nunca desista dos seus sonhos de Augusto Cury



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